Resenhas


Capital Revelada 1

Divulgação/ Atlas Moniz e Caique Guerra

Eu aprendi a gostar de fantasia urbana com autores brasileiros independentes – Lauro Kociuba, Janayna Bianchi e outros. Assim como os livros desse pessoal, “Capital Revelada ~Ele, que caça emoções~”, do Atlas Moniz, é uma baita publicação. Não sou muito de falar das capas, ilustrações e etc., mas acho que nesse caso também vale dar parabéns ao capista, Caique Guerra. É uma capa que chamaria a minha atenção em uma livraria. O ar meio macabro dela me lembrou essa lista aqui de “13 mangás japoneses de terror que vão desgraçar a sua cabeça“. Combinou demais com o aspecto melancólico/surreal da história. Voltando ao livro, leiam a sinopse:

O limite do vazio, emoções tomando forma. Olhos que o encaram do negrume, o espectro de um garoto há muito morto, uma realidade oculta. Para Luiz Azevedo, universitário e historiador em formação, tudo começa com uma foto velha, presumivelmente da década de 1920, de um jovem com feições do leste asiático: um rapaz que parece sair da foto para assombrar seus dias e noites, que parece segui-lo nos melhores e piores momentos.

Uma relação abusiva, uma tentativa de suicídio, um jovem socorrido em mais um de seus piores momentos. O tal Marcos Castelo Branco (ou Marcos Akiyama?), colega de faculdade de ascendência asiática, tem uma semelhança assustadora com o retratado na foto de oitenta anos antes. Quando Luiz e Marcos começam a se conhecer, quando seus destinos começam a se entremear, as grandes questões parecem uni-lo em um confronto contra o desconhecido: quem é o rapaz da foto e por que ele se parece com Marcos; por que ele insiste em observá-los de perto, das portas de seus quartos, parado e inexpressivo como uma estátua de mármore, morto há décadas?

Tudo começa e termina com uma foto.

Vou começar contando o que eu não gostei:

1) Não curti muito um dos personagens principais, o Luiz, e vários dos personagens secundários. Por quê? Menos por culpa da personalidade deles e mais por culpa do autor. O motivo principal é o conjunto de reações deles em determinadas situações. O Luiz, por exemplo, passa por coisas esquisitas com o Marcos logo no início do livro (ou seja, ele ainda não estaria acostumado a elas) e as respostas dele são “de boa” demais. Ainda, determinados diálogos (não só do Luiz) soam forçados.

2) Encontrei alguns erros de vírgula, concordância e palavras fora de lugar.

3) O Atlas descreve as cenas de maneira breve e não perde tempo com aquilo que não é essencial. Normalmente, isso é ótimo. Às vezes, porém, faz passar batido um ou outro trecho importante, que merecia parágrafos a mais. Talvez eu seja desatenta, mas precisei voltar no texto em algumas partes para entender certinho o que tinha acabado de acontecer.

Agora, falando dos pontos positivos, devo destacar que o melhor deles é a trama bem construída, criativa e misteriosa. O ritmo inicial da história é lento; não ocorre nada de grande importância, e sim vários negócios pequenos. Eu não vejo isso como um defeito, porque se encaixa com o perfil do Luiz, um cara entediado, ligeiramente depressivo e cansado da mesmice da vida. Eu consegui sentir o que ele estava sentindo. Depois, quando ele se aproxima do Marcos, cresce a excitação e a história começa a fluir mais rápido. A vida do Luiz passa a ter graça.

Sou do tipo de pessoa que joga o mesmo jogo 500 vezes para ver se algo muda na história, então outra coisa que adorei foram os finais alternativos (mais de uma opção de desfecho é apresentada para certos pedaços da narrativa), algo bem recorrente em games e não muito comum na literatura. Embora tenha sido uma decisão legal, a execução desse método não foi ideal. Penso que os finais diferentes poderiam ter sido introduzidos de uma maneira melhor de digerir – demorei para descobrir qual era o sentido daquilo -, facilitando a vida do leitor.

Critiquei a construção de personagens antes, mas em um ponto não há do que reclamar: temos na história um romance LGBT e os seus protagonistas, Luiz e Marcos, não são NADA estereotipados, o que é sempre uma vitória em termos de representatividade. Sem contar que o romance em si não é nem um pouco piegas (nossa, até a palavra piegas é piegas). O autor mostra uma conexão forte entre os dois sem apelar para um sentimentalismo exacerbado.

Quanto à escrita, achei boa, bem acessível e direta. “Capital Revelada” foi a minha primeira leitura em 2016 e eu não me arrependo. Você pode comprar o livro do Atlas pelo site da Amazon, no formato e-book. Lembre-se que para ler um e-book não é necessário ter um Kindle ou qualquer outro leitor eletrônico! Basta baixar o aplicativo do Kindle em seu smartphone, tablet ou computador. “Capital Revelada” também tem uma página no Facebook. Dê um like, compre o livro e auxilie um bom escritor brasileiro!


A Auriflama do Caos: A Nova Ratoeira 3

Divulgação/Mogg Mester, Diego Araújo e Pimenta Malagueta

No início de outubro, recebi um e-mail de um autor que gostaria de ter sua obra resenhada. Como de costume, prometi que a crítica seria publicada dentro de um mês. Não consegui cumprir a promessa: fui impedida por 13 cadeiras, um TCC e muitos projetos. Hoje, com o semestre continuando a me matar aos poucos, estava prestes a propor uma nova extensão do prazo. Porém, ao pegar meu kindle para consultar alguns livros necessários a meu TCC, abri sem querer “A Auriflama do Caos: A Nova Ratoeira”.

Cansada dos textos acadêmicos, folheei as primeiras páginas do e-book. Qual não foi a minha surpresa quando, algumas horas depois, as primeiras tornaram-se as últimas e me vi com o livro concluído. “A Nova Ratoeira” é uma daquelas publicações que me faz acreditar na força da literatura fantástica produzida no Brasil. A obra, escrita por Mogg Mester, integra a trilogia “A Auriflama do Caos”. Confira a sinopse fornecida pelo autor:

A Auriflama do Caos: A Nova Ratoeira é o primeiro volume de uma trilogia de fantasia medieval que tem como base os conteúdos de jogos de RPG jogados pelo autor. A obra conta as aventuras de um grupo de heróis, conhecidos como os Lâminas flamejantes, que vão ao mundo de Fyskar para descobrir a origem de alterações nas camadas mágicas de seu mundo. Lá descobrem que alguém com a alcunha Auriflama do caos está arquitetando planos sombrios através da invocação de um grande mal. Em um mundo desconhecido, os Lâminas flamejantes viverão seus mais novos desafios em busca da solução deste problema, conhecerão aliados poderosos e adquirirão inimigos temíveis.

Na verdade, a sinopse foi uma das razões para eu não ter reservado antes um tempo para esta leitura: não apreciei o tipo de escrita ou o amontoado de informações condensadas em um espaço limitado. Sinopses precisam ser instigantes, e esta não era. Mas acreditem, eu entendo o drama; resumir minhas histórias em poucas palavras é uma arte que eu também não domino. A sinopse falhou em captar a singularidade da obra.

O livro começa com um prefácio sincero e diferente. Mogg Mester fala de onde surgiu a sua vontade de escrever e da influência dos jogos de RPG nesse processo. Ele fornece informações pessoais sobre sua vida, convidando o leitor a conhecê-lo (e compreendê-lo). Sua experiência mestrando sessões de RPG, a qual ele menciona no prefácio, fica mais e mais evidente ao longo de “A Nova Ratoeira”, em especial durante as descrições de lugares e personagens. Não houve uma cena sequer que eu não conseguisse visualizar perfeitamente, graças ao detalhamento com o qual Mogg é comprometido.

As frases curtas e objetivas transformaram a leitura em algo agradável. Recomendaria o livro mesmo para os leitores menos assíduos. O universo criado pelo autor é rico, dispondo de formas de funcionamento particulares, embora não tão distintas (em sua essência) das práticas comuns ao nosso mundo, facilitando o seu entendimento. De maneira geral, considero “A Nova Ratoeira” uma publicação única e obrigatória para os fãs de literatura fantástica – se desejarem uma prova, saibam que não somente minha leitura foi ininterrupta, mas estou escrevendo esta resenha às três horas da madrugada de uma quinta-feira. Todavia, não pude deixar de notar alguns problemas, como palavras repetidas ou crases, vírgulas e expressões mal inseridas. Apesar destes inconvenientes interferirem na qualidade final do trabalho, todos poderiam ser corrigidos com uma breve revisão.

A versão física de “A Auriflama do Caos: A Nova Ratoeira” possui 288 páginas e foi publicada pela Editora Pimenta Malagueta em 2013. Você consegue adquiri-la por meio da página A Auriflama do Caos, no Facebook. Já o e-book está disponível na Amazon. Para mais informações, entre em contato com o autor pelo e-mail moggmester@yahoo.com.br.


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Senhores do Anoitecer: Lua de Sangue 4

Divulgação/Igor Dmirkutska e AlphaGraphics

Continuando com as resenhas de novos livros nacionais, vou falar sobre as minhas impressões a respeito de “Senhores do Anoitecer: Lua de Sangue”, de Igor Dmirkutska. Segue a sinopse:

Por entre as sombras turvas de nossa sociedade, escondem-se seres cujos nomes e formas insistimos em esquecer, alguns dos quais a nefasta existência negamos até nosso último suspiro de sanidade… Porém, isso não os torna menos reais. Uma guerra tem sido travada entre essas criaturas noturnas desde muito antes do que se possa imaginar, no entanto, é na alvorada do terceiro milênio que o mais terrível desses embates ocorrerá e, sob a luz da Lua de Sangue, os senhores do anoitecer se enfrentarão… Talvez pela última vez.

Considero esta apresentação ligeiramente vaga e insuficiente para chamar tanta atenção quanto deveria – ainda que instigante, o conteúdo do livro não fica claro. “Lua de Sangue” é protagonizado por criaturas muito conhecidas e exploradas na literatura fantástica mundial: lobisomens e vampiros. A rivalidade entre estes inimigos é o que move a trama, logo, não temos um único herói, mas diversos seres trabalhados ao longo da narrativa.

Com isto em mente, você pode se pegar pensando que deve ser difícil fazer funcionar uma história com tantos personagens. E com certeza é. Igor resolveu o possível obstáculo colocando pessoas para nos contarem a aventura a partir de pontos de vista diferentes: o autor sempre indica qual personagem está narrando cada trecho. No começo, a técnica me deixou confusa devido a certas formas de narrar serem similares (várias vezes tive que voltar ao início da passagem para me lembrar quem estava falando). Depois que me familiarizei com o estilo do escritor a leitura fluiu.

Senti falta de uma revisão mais dedicada e atenta. Não são poucas as palavras repetidas, frases longas ou erros de digitação. Entendo que edições independentes não são fáceis ou baratas, contudo, de algumas coisas não podemos abrir mão. A capacidade de descrição do autor também oscilou: em determinados momentos, as explicações extensas foram muito bem-vindas; já em outros, considerei-as desnecessárias e cansativas. Segundo Igor, uma nova versão do e-book (com a reparação destas incorreções) será disponibilizada na Amazon nos próximos dias.

Apesar dos problemas comuns a autores estreantes, fica evidente que Dmirkutska trabalhou por bastante tempo na obra. O enredo é consistente, criativo e suficiente para se sustentar ao longo das 528 páginas da publicação. De maneira geral, o saldo ainda é positivo e eu recomendo a leitura para quem consegue relevar pequenas falhas. “Senhores do Anoitecer: Lua de Sangue” pode ser adquirido como livro eletrônico na Amazon ou em versão física diretamente com o escritor.


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