Portfólio


A rua de cada um 1

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Mario Quintana

– Pega o Serraria ou o Ponta Grossa e pede pro cobrador te avisar quando chegar na padaria Lelé da Cuca. Aí vai descendo umas quadras. É ali pertinho, passando o mercado dos gringo e o bar do Osni.

Eu já sabia como chegar na rua João Palma da Silva, mas quis descobrir quem mais sabia. Para o meu espanto, obtive este trajeto detalhado após pedir direções a uma única pessoa em um terminal de ônibus da Salgado Filho, no centro de Porto Alegre. Na realidade, o homem a quem perguntei não conseguiu responder: antes dele dizer qualquer coisa, foi interrompido pela senhorinha miúda e de ouvidos atentos que há pouco desembarcara de uma das conduções. Com a típica curiosidade de quem conhece todos os vizinhos pelo primeiro nome, ela indagou:

– Quem tu vai ver lá?

– Vou na casa da Dona Leda.

– Ah, então manda um beijo pra ela! E pro Seu Bisico também! – concluiu, agora se afastando.

Surpresa com o fato de uma pessoa aleatória em uma cidade de um milhão e meio de habitantes conhecer meus avós e o caminho exato para a casa deles, subi no ônibus – um Serraria, conforme fora indicado pela senhora. Em aproximados quarenta minutos, estava em casa.

Tenha passado um dia, um mês ou um ano, aquele pequeno pedaço da zona sul permanece sempre igual. Claro, o mercado “dos gringos” mudou várias vezes de nome, o Osni faleceu e as fachadas das residências se renovaram: imutáveis mesmo são os meus sentimentos em relação ao bairro. A João Palma da Silva é a rua da minha infância e, quando a chamo de casa, vale destacar que é em um sentido emocional, não literal. Casas literais eu tive muitas: foram onze, espalhadas por São Gabriel, Gravataí, Bagé, Santo Ângelo, Camaquã, Cachoeira do Sul e Porto Alegre. Ela possui uma qualidade mais interiorana do que qualquer uma das cidades do interior em que eu morei; em meio à agitação da capital gaúcha, é símbolo de resistência. Lá, os vizinhos se dão “bom dia” e os dias são verdadeiramente bons.

A minha primeira memória é desta rua. Eu tinha três anos e estava sentada na calçada quando meus pais voltaram do hospital com o meu irmão mais novo. Menos de uma década depois, foi nesta calçada que, em um caderno barato, rascunhei todo o meu primeiro livro. Ali eu também inventei brincadeiras, corri com os meus oito primos e ralei os joelhos em inúmeras oportunidades. Tive caxumba e catapora, sendo forçada a ficar de cama. Nas ocasiões, fui resgatada pelos primos pela janela do quarto e, consequentemente, acabei por dividir com eles as doenças. Comemorei aniversários, casamentos e formaturas. E chorei sempre que era hora de voltar para “casa”.

Não sou a única que acumula lembranças da João Palma. Ao serem questionadas a respeito dos momentos vividos por lá, pessoas de três gerações da família citaram carinhosamente a pracinha logo na esquina, fonte inesgotável de diversão. Já uma das minhas irmãs (irmã não literal, mas emocional, tal qual a rua) contou que, ao chegar na casa da vó, recorda os finais de semanas esporádicos em que a minha família (não morando mais em Porto Alegre) retornava para visitar. Ela se reunia com as minhas irmãs mais velhas no carro do meu pai e as três matavam a saudade ouvindo CDs. Um destas irmãs mais velhas falou das tardes de falta de luz; nestas, todos sentavam em frente a casa para conversar. Algumas tias lembraram que um namoro da família Silva só é oficial após os pretendentes visitarem a rua da vó Leda e do vô Bisico. E chances não faltam: aos sábados, comer bolo na casa deles é atividade obrigatória.

Em um dia assustadoramente próximo, os paralelepípedos serão substituídos por cimento e as árvores cederão espaço a grandes prédios luxuosos. Ainda assim, histórias continuarão a serem escritas, porque esta é a magia das ruas: elas se adaptam e sobrevivem por tanto tempo quanto durar a memória daqueles que as cruzaram. A minha João Palma da Silva – das brincadeiras infantis, das tardes de férias e dos bolos aos sábados – deixará de existir junto comigo. Em seu lugar, surgirão milhares de novas ruas pertencentes a outras crianças, outros adultos e outros avós. Da minha, ficará apenas esta crônica, contando um pouquinho sobre o local singular que um dia eu chamei de casa.


Crônica produzida para disciplina de Jornalismo Cultural, no semestre de 2016/1. Se você já leu “O Velho Mundo”: os membros da família Silva são os Cantrell da vida real (:


As mulheres e a computação 1

Quando entrei no curso de Ciência da Computação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2011, a presença feminina era escassa. No início, ao andar pelos corredores do Instituto de Informática (INF), não eram raras as vezes em que olhares prolongados e desagradáveis faziam-me sentir como se eu não pertencesse àquele lugar. Na verdade, logo no meu primeiro semestre, uma professora fez questão de dizer que eu não pertencia: “Se você não entendeu esta parte do conteúdo, não deveria estar aqui”, afirmou ela com propriedade. Em resposta, argumentei que outros colegas – meninos – também tinham as mesmas dúvidas. “Mas eles não são mulheres. Para ganhar espaço na T.I., terá que se esforçar mais do que todos eles juntos”, falou. Nunca me convenci a gostar daquela professora, embora hoje consiga reconhecer que ela não teve culpa por suas palavras. Afinal, estava apenas reproduzindo o que escutara de seus avós, pais e empregadores, ao longo de uma vida inteira.

No Brasil, de acordo com o censo de 2010 do IBGE, aproximadamente 520 mil pessoas atuam na área de Tecnologia da Informação, e as mulheres representam um quarto desta soma. Além de serem minoria, elas ganham (em média) 34% a menos que os homens. Em posições de comando, a discrepância é ainda maior, alcançando os 65%. Entre os recém-formados da Ciência da Computação, 22% são do sexo feminino.

Docente no Instituto de Informática da UFRGS, Taisy Weber considera a universidade um espaço inclusivo. “O ambiente acadêmico é extremamente acolhedor e respeita as diferenças. Existe toda uma área de pesquisa na computação que afirma que a diversidade é a melhor maneira para gerar projetos de qualidade”. Infelizmente, os próprios dados do INF revelam outra realidade. Na Ciência da Computação, dos 538 alunos matriculados na graduação, somente 81 são mulheres. Já na Engenharia da Computação, temos 35 meninas em um total de 322 estudantes. Os números tornam-se mais preocupantes em se tratando de alunas negras: são 10 no primeiro curso e 4 no segundo.

Atitudes excludentes e machistas estão naturalizadas no cotidiano e em ritos de passagem acadêmicos. “Sexo, dinheiro, mulher e zoação. Se tu quiser melhor, vem fazer computação” era um dos gritos de guerra na época em que eu participei do trote universitário. Não incomumente, alguns colegas – incluindo amigos próximos – me diziam para buscar cervejas ou fazer sanduíches, porque lugar de mulher é na cozinha. Escutava veteranas reclamando de assédio (moral e físico) por parte de professores demasiadamente invasivos. E, por último, existiam também os rankings que elencavam quais calouras eram mais “fáceis”, conforme o número de meninos com quem haviam se envolvido.

Na maioria dos casos, estes problemas são vistos erroneamente como meras brincadeiras. Práticas ofensivas recorrentes motivam muitas mulheres a abandonarem a T.I. Aquelas que resistem aos insultos e conquistam uma formação, acabam por enfrentar situações piores no mercado de trabalho. “Na década de 70, as empresas não sabiam lidar com mulheres. Minhas poucas colegas da engenharia foram atuar em empresas públicas, onde a discriminação era ilegal. Nas privadas, escutava-se abertamente que não poderíamos ser contratadas devido aos longos períodos de licença maternidade. Isto mudou de forma drástica nas décadas seguintes. Agora, as empresas vêm à universidade para incentivar as alunas a se inscreverem nos processos seletivos”, conta Taisy. Contudo, apesar da evidente evolução do cenário, o preconceito está longe de ter um fim.

 

Enfrentando o preconceito juntas

Cansadas de serem vitimadas pelo machismo característico das ciências exatas, muitas mulheres passaram a se unir, dando início a projetos para estimular as garotas no trabalho com a computação. Um deles é o Mulheres na Tecnologia (MNT), que surgiu a partir de uma conversa entre três mulheres em uma comunidade goianense de usuários Debian. “Queríamos organizar um evento semelhante aos que são realizados pelo grupo Women Debian. Porém, começamos a pensar na ausência de mulheres na área de Tecnologia da Informação. A fim de ampliar os debates, criamos uma comunidade no Google Groups, restringida ao estado de Goiás. Posteriormente, ela adquiriu dimensão nacional”, explica uma das fundadoras e conselheiras do MNT, Andressa Martins. Os objetivos do coletivo incluem a busca de igualdade de tratamento no mercado de trabalho para homens e mulheres, o incentivo de pesquisas e reflexões relativas às mulheres na tecnologia e o empoderamento das meninas que atuam na área. “O MNT impulsiona garotas a palestrarem em eventos, produz workshops online e bate-papos informais, divulga artigos técnicos e possui listas de discussão, nas quais todas podem contribuir com ideias. Nossas redes sociais e site também estão à disposição para difundir o talento das meninas.”

Inspirada no projeto Ah, Branco, dá um tempo! – que por sua vez é influenciado pela iniciativa I too am Harvard –, a professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e representante institucional da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), Karen Figueiredo, desenvolveu o Delete Seu Preconceito. A proposta visa denunciar, através de fotografias, o preconceito sofrido por alunas e profissionais da T.I. “Desde a inauguração da página recebemos muitas histórias de meninas e mulheres que se identificaram com o projeto”. Já no Instituto de Informática da UFRGS foi criado o Meninas da Computação. “Promovemos encontros de veteranas e calouras, e de profissionais formadas e estudantes”, expõe Taisy.

3º Encontro Nacional de Mulheres na Tecnologia, realizado nos dias 11 e 12 de setembro em Goiânia. Reprodução/MNT

 

Não é brincadeira, é machismo

“Acredito que a situação de preconceito que mais me marcou foi no meu primeiro estágio após a faculdade. Diariamente, meus colegas de trabalho falavam que eu havia sido contratada para fazer o café, e não para programar”, relata a professora da UFMT, Karen Figueiredo. “Chegaram a apostar quanto tempo eu duraria no laboratório, uma vez que eles, com táticas idênticas, fizeram com que duas outras meninas desistissem de trabalhar lá”. Ao informar ao chefe local das afrontas destinadas a ela, Karen foi obrigada a escutar o que muitas de nós já ouvimos/ouviremos em diversas ocasiões: “Homens são assim mesmo!”.

Andressa Martins, da MNT, garante ter experienciado algumas formas clássicas de machismo, tais quais perguntas indiscretas, piadas em sala de aula e salários menores para exercer o mesmo cargo que um homem. “A mulher que trabalha com T.I sempre está sujeita a momentos incômodos, pelos quais os homens não são obrigados a passar”, acredita Andressa. A jornalista e ex-editora assistente da Revista INFO, Paula Rothman, declara nunca ter sentido sua capacidade menosprezada no ambiente de trabalho, a despeito de ocorrências graves com seu público leitor. “Certa vez, recebi um e-mail bastante explícito de um rapaz me chamando para ir ao motel com ele. Nunca respondi. Em uma segunda ocasião, um leitor me escreveu no Facebook pedindo um vídeo específico onde meu decote estava ‘generoso’. Esse comentário me fez escrever uma carta aberta, postada no site. Depois de ver a carta, o leitor veio pedir desculpas – disse que não percebeu como isso era ofensivo.”

A consultora de desenvolvimento de software na ThoughtWorks Brasil, Desiree Santos, diz que muitos preconceitos estão tão enraizados em nossa sociedade que não nos damos conta quando eles acontecem. Obviamente, isto não justifica a sua ocorrência. “Nos trabalhos antigos, para conseguir espaço, eu tinha que ser como eles a fim de ser respeitada e ganhar lugar no time. Na ThoughtWorks, graças a grupos tais quais o Gender Justice e o Quilombolas, pude encontrar uma atmosfera diferente”. O Gender Justice, coletivo da ThoughtWorks Brasil, luta pela igualdade de gênero nas organizações, promovendo o empoderamento das mulheres. Já o Quilombolas, do qual Desiree faz parte, busca a representatividade negra em todas os campos – incluindo a T.I.

Ketelem Lemos posa com uma das frases que já ouviu por trabalhar com T.I: “Se fosse para programar, ela tinha nascido homem”. Reprodução/Delete Seu Preconceito

 

A invisibilidade da mulher negra

Se eu – branca e financeiramente privilegiada – tive dificuldades para me sentir parte do império masculino da T.I, sou incapaz de sequer mensurar o tamanho da falta de representatividade observada pelas meninas negras. Mas há um número que nos fornece uma pequena noção: um vírgula seis. Um vírgula seis. Elas são apenas 1,6% do corpo discente do Instituto de Informática. Uma vez que este não é meu lugar de fala – e a universidade não é capaz de suprir a falta de acadêmicas negras tanto na área de Jornalismo quanto nas demais (cotas raciais são o mínimo que podemos fazer) –, resta-me reproduzir as histórias destas mulheres.

Karen Figueiredo conta que, entre todos os relatos recebidos por meio da iniciativa Delete seu preconceito, os mais emocionantes partiram de três estudantes negras. “Eram alunas de lugares diferentes que enviaram mensagens dizendo estar felizes porque, através das fotos do projeto, descobriram outras meninas negras que faziam computação. Uma delas falou: ‘É bom ver que não sou a única, que não estou sozinha’”. Segundo Karen, estas experiências foram especialmente tocantes visto que, ao idealizar o projeto, não pensara em implementar recortes além do referente ao gênero.

Ao procurar possíveis fontes para esta reportagem, demorei até conseguir indicações de mulheres negras. Após muito investigar, encontrei a professora substituta e pesquisadora do Técnico em Desenvolvimento de Sistemas do Instituto Federal de Brasília (IFB), Alessandra Gomes. Ela, um exemplo de resistência negra e feminina na T.I, dividiu comigo algumas das situações de preconceito pelas quais passou. “Um exemplo recorrente (desde o meu primeiro emprego) é: eu produzo algo e apresento para a equipe, que só aprova meu trabalho depois dele ser legitimado por um homem. O mesmo não acontece quando um homem mostra uma produção. Alguns colegas também se sentem ofendidos quando eu (mulher) questiono os projetos deles. Outros tentam se apropriar das ideias propostas por mulheres”. Para Alessandra, ser professora mulher na área de T.I. é um desafio ainda maior. “Muitos alunos duvidam de minha capacidade. Ficam me testando o tempo todo e o respeito demora bastante para aparecer. É comum o aluno não levar a sério a disciplina até a primeira avaliação. Tive, inclusive, um caso de um aluno que reprovou e, no semestre seguinte, veio pedir desculpas pela postura. É um trabalho diário de luta e conquista de reconhecimento”.

Alessandra alega que, até o momento, nunca foi vítima de racismo por parte de colegas ou alunos, mas já teve problemas em conferências de T.I. “Certa vez, cheguei atrasada a um evento e fui barrada na entrada. Achei que fosse por não usar uma identificação. Tirei o crachá da mochila, mostrei para o segurança e ainda assim ele não me deixou passar. Se posicionou como uma parede na minha frente e começou a fazer diversas perguntas sobre o evento. Quase um interrogatório. Fiquei chocada com aquilo. Uma colega (branca) chegou mais atrasada do que eu e para ela cobraram somente o crachá”. Em outra ocasião, desta vez no ambiente de trabalho, Alessandra teve novamente sua entrada obstruída. “O segurança para quem eu sempre dizia bom dia, que sabia que eu trabalhava ali, não me deixou entrar. Ele parou na minha frente e questionava ‘Onde você vai?’, ‘Vai falar com quem?’. E mais uma vez, enquanto ele fazia isso, uma colega (branca) passou por nós e ele sequer olhou para ela!”.

Por recomendação de Alessandra, também conheci a técnica em desenvolvimento de sistemas Gardênia Nogueira Lima. Gardênia se interessa pelas relações políticas no campo da computação, sendo entusiasta do setor de software livre. “Me encanta imaginar a amplitude das mudanças que o software livre possibilitaria na sociedade”. Ela comemora ter se formado em uma turma composta quase que exclusivamente por alunos negros. “A maioria negra era uma das coisas que me deixava feliz no curso, porque com isso a possibilidade do professor dar um tratamento diferenciado a negros e brancos era menor. A grande diferença que eu sentia era em relação ao tratamento de homens e das pouquíssimas mulheres. Um dos meus professores preferia meninos, e usava as meninas para dar bronca”.

Aluna do 5º semestre do curso de Sistemas de Informação da UFMT, Ketelem Lemos, diz sofrer preconceito desde que entrou na faculdade. “Mesmo em rodas de amigos, a primeira reação das pessoas é dizer: ‘Mas como você vai arrumar emprego se a profissão é de homem?’. Na faculdade, você se torna um objeto. Ao entrar na sala, sempre tem alguém que diz ‘Chegou a pessoa para embelezar o ambiente!’. Ou quando falam que já te consideram como um homem, implicando que isto seria um privilégio, pois você passa a fazer parte do grupo deles”. Para Ketelem, os piores casos ocorrem no ambiente de trabalho. “Muitas vezes querem te colocar como secretária do setor. Não desejo desmerecer a profissão, mas escolhemos fazer T.I., e não secretariado. Você tem que se esforçar muito mais para ser vista. E se você erra, não é porque não sabe ou se equivocou, mas sim porque é mulher e não deveria estar naquela posição”.

A estudante aponta que o preconceito na T.I. está atrelado à aparência física das garotas. “Se for muito bonita, vão achar que ela é burra, subestimá-la. Se não for, não só vão subestimar, mas também vão evitar se aproximar ou atender as necessidades dela”. No ponto de vista de Ketelem e das demais entrevistadas – as únicas perspectivas importantes, já que são elas que sofrem diariamente com isto –, a questão racial amplia as dificuldades. “O preconceito existe e está por aí, em nossas casas, trabalho e escolas. Às vezes, ser negra quebra a empatia inicial que as pessoas costumam ter com a gente, e muitos se afastem de nós por causa disso. Não é de hoje que ouvimos frases como ‘Nossa, tinha que ser serviço de preto’ para dizer que algo não foi bem feito. Muitos levam na brincadeira. Sabe, pode não afetar você, mas machuca outras pessoas”.

A desenvolvedora de software Desiree Santos ressalta a importância de discutir o machismo sem deixar de atentar ao fato de que, se mulheres brancas sofrem, podemos ter certeza que as negras sofrerão muito mais. “A realidade da mulher negra é bem distinta da mulher branca. Enquanto negra, preciso lutar não apenas contra o machismo, mas também contra o racismo em todos os lugares em que vou. Já sofri racismo institucional em processos seletivos e, frequentemente, sou confundida com a servente, a faxineira ou a garçonete, e nunca com a diretora. Por isso que milito para mudar este quadro!”. Desiree integra o coletivo Quilombolas, da ThoughtWorks Brasil, fundado no segundo semestre de 2014. O objetivo do grupo é fortalecer a presença negra no mercado, conectando-os e permitindo que eles próprios apontem o que precisa ser retificado neste sistema que favorece majoritariamente pessoas brancas.

Reprodução/ZachWeinersmith/SMBC Comics. Tradução: Kátia Regina Souza

 

Mudemos

Qual seria, então, a solução para aumentar o número de meninas interessadas pela computação? “Esta resposta é difícil, mas determinadas estratégias poderiam ajudar: divulgar modelos femininos, incentivar o networking, investir em ações afirmativas e criar projetos que informem as mulheres sobre as possibilidades de carreira na área, conscientizando a comunidade de T.I com relação à equidade de gênero”, pensa Karen.

“Sempre digo para as minhas alunas que a jornada é mais difícil se elas estiverem sozinhas. Existem vários grupos de mulheres na programação, computação, tecnologia. Estes grupos desenvolvem diversos tipos de trabalhos, mas também são uma fonte motivadora para seguirmos nessa luta”, considera Alessandra. Desiree sugere às meninas que “Procurem por mulheres na tecnologia, movimentos negros ou outros ambientes colaborativos e participem ativamente. É preciso ação, atitude! Acredite, você encontrará pessoas que te julgarão pelo gênero e cor da pele, mas seja forte e não permita que eles roubem sua autoestima”.

Para Taisy, o estímulo deve iniciar na escola. “Se a menina gostar de matemática, quebra-cabeças e jogos de lógica, já está pronta para começar a visitar universidades e empresas, e conversar com mulheres que trabalhem na área. Muitos acham que é necessário inserir a computação como uma disciplina adicional no currículo escolar. Tenho minhas dúvidas. Preferiria engajar os professores de matemática na introdução ao pensamento computacional”.
Paula acredita que, desde cedo, precisamos desconstruir os estereótipos associados à palavra “tecnologia”. “O meu interesse por ciência, por exemplo, veio de casa, ao ver minha mãe (bióloga, pesquisadora e professora) lidando com esse assunto diariamente. Apesar de adorar bonecas, Barbies e ‘brincar de casinha’, também brinquei muito com Lego, kits de química e peças de montar. A questão de estereótipos de gênero começa em casa e passa pela escola, meio acadêmico, ambiente de trabalho e mídia”. Conforme coloca Andressa Martins, é essencial que as meninas reconheçam o seu potencial e confiem nele.

Penso que a conquista de espaço da mulher na computação não depende apenas dela. Às meninas, desejo coragem e aconselho que se arrisquem na área se esta for a sua vontade. Quanto aos demais – em especial aos piadistas: o mundo seria um lugar melhor se vocês simplesmente nos escutassem e deixassem de ser trouxas.


Tatuagem por quê? 5

Todo corpo é um produtor de signos. Qualquer modificação que fazemos nele, por mais trivial, sempre dirá algo a nosso respeito. Quando nos tatuamos não é diferente. Logo, não existe um fator padrão que motiva as pessoas a adotarem este procedimento, mas sempre haverá um porquê.

 

As tatuagens e modificações corporais têm se tornado um assunto cada vez menos polêmico. Hoje, elas aparecem de diferentes formas em nosso cotidiano e são requisitadas por um grande público, seja como recurso na construção de uma identidade, meio de expressão artística ou meramente por questões estéticas. É um hábito antigo – ninguém consegue precisar exatamente sua data de origem – que foi incorporado por muitas sociedades ao longo dos tempos. “Esta prática se relaciona com a experiência existencial e remete aos rituais das ditas sociedades não letradas. Cada tatuagem é como se fosse uma escrita; através dela eu sei com quem estou falando. Por este motivo, ela acaba adquirindo múltiplos papéis: identificação, demonstração de laços, pertencimento e exteriorização de fatores que habitam nosso eu”, afirma o fotógrafo Alexandre Medeiros, que vê o tema como um subaspecto dentro da problemática do corpo, a qual tenta pleitear em seus trabalhos ao retratar situações marginais e limítrofes.

A procura por estúdios de tatuagem e body piercing cresceu muito em comparação ao cenário de 10 anos atrás. “A tatuagem ganhou uma nova proporção. Antes, o jovem começava fazendo algo pequeno, primeiro para entender a dor e saber se ia gostar. Agora não. Eles chegam aqui querendo fechar uma perna, um braço. A demanda entre adultos também cresceu. Aliás, são os mais velhos que compõem a maior parte de nossa base de clientes”, conta Ibrahim Barboza, tatuador e dono de um estúdio na zona sul de Porto Alegre.

Cris e Victor Peralta. Divulgação/Maiury Winckiewicz

Para várias pessoas, a tatuagem vai deixando aos poucos de ser um passatempo e se transforma em suas vidas. Cris e Victor Peralta, por exemplo, entraram no Guinness Book (Livro dos Recordes) como o casal mais modificado do mundo. Ela, que trabalha com body piercing, tem quase 55% do corpo tatuado; ele, também um tatuador, já passa dos 95%. “A gente come, respira e vive tatuagem. É algo presente em boa parte do nosso dia. Temos dois estúdios, ambos em Buenos Aires, na Argentina. Passamos mais tempo neles desenvolvendo os trabalhos dos clientes do que em casa. Para mim, a pele é uma página em branco. Assim como tem gente que pinta quadros, nós pintamos ela”, afirma Victor. Os benefícios de atuar nesta área são diversos, conforme Cris destaca. “Estamos inseridos dentro de uma comunidade. Tanto pelo fato de sermos modificados quanto por nossa carreira envolver isto, temos chances excelentes de viajar, participar de convenções do mundo todo, conhecer novas culturas, novas pessoas… Trabalhamos brincando”.

Casal entrou para o Guinness Book como o mais modificado do mundo. Divulgação/Kátia Regina Souza

Mas mesmo os mais aficionados no assunto não se resumem somente a isto. Em relação às modificações suas e da esposa, Victor ressalta que os dois não possuem sempre o seu próximo projeto em mente. “Ao contrário do que alguns possam imaginar, não pensamos o tempo inteiro no que vamos fazer depois. Quando surge uma ideia legal e queremos colocar em prática, a gente põe, simples. Não somos alienados. Ocupamos nossa cabeça com outras coisas”.

 

Manifestação marginal ou arte?

Embora o preconceito contra tatuados tenha diminuído, ele está longe de ser abolido por completo. Segundo a tatuadora e body piercer Ana Drechsler, há quem vá dentro dos estúdios para questionar sua soberania sobre o próprio corpo. “Escutamos frases absurdas seguidamente. Tivemos muitos casos de pais que acompanharam os filhos até aqui, enxergaram a quantidade de tatuagens que tenho e disseram ‘Olha pra ela, eu não quero que tu fique assim. Por que alguém faria isso?’”.

Ibrahim Barboza trabalha no próximo projeto. Divulgação/Kátia Regina Souza

A intolerância ao redor do tópico tornou-se tão comum para Victor Peralta que já não o perturba. “Em todos os lugares que você for, sempre vai ter um babaca. Ao lado do meu estúdio existe uma Igreja Universal. O pastor costuma falar que eu sou o diabo, manda embora meus clientes, berra no meio da rua e diz um monte de absurdos. Sinceramente, não me incomodo. Ou ele não está bem da cabeça, ou é mais diabo que eu”. Na visão de Ibrahim, tatuar é uma arte como as demais. “No momento, estou focado no pontilhismo. Criar um desenho bom neste estilo exige um estudo aprofundado, conhecimento de geometria e todo um cálculo por trás. É um trabalho intenso e demanda comprometimento meu e do cliente, uma vez que pode ser muito demorado”.

É complicado destruir um preconceito quando mesmo o campo da tatuagem não está livre dele. Não existem dados oficiais em se tratando deste assunto, mas por meio de conversas com profissionais e visitas a estúdios é possível reparar que o número de mulheres tatuadoras ainda é ínfimo se comparado ao de homens. “Trabalho com o piercing há mais de 12 anos e tatuo há aproximadamente três. Muitos clientes e outros tatuadores costumam pensar que, por eu ser mulher, a arte não será tão bem feita. Isso nos prejudica bastante porque precisamos de oportunidades para montar um bom portfólio e acabamos tendo menos que os homens”, revela Drechsler.

Tatuadora e body piercer Ana Drechsler. Divulgação/Kátia Regina Souza

Quem hostiliza pessoas tatuadas costuma se importar não com o teor do desenho em si, mas com o simples fato dele existir. Afinal, a partir do momento que somos modificados, passamos a integrar um grupo diferenciado. Ou seja, o debate levantado pela tatuagem se distancia do que diz respeito à beleza por consistir em algo mais profundo. “Não é a estética pela estética. Claro que você vai querer ter um trabalho bonito, mas vai além disso. Quando eu me tatuo, estou escrevendo a minha lei na minha pele: desejos, crenças, temores, fragmentos de ideias que moldam uma personalidade. Como fotógrafo, estou pouco me lixando para se meu trabalho vai ser considerado arte ou não, e acho que tatuadores também estão. Hoje em dia existe uma grande poluição de imagens belas, de qualidade aceitável, mas que pecam por não dizerem nada. É uma espécie de parnasianismo visual”, acredita Medeiros. Ninguém tem propriedade para ditar o que é arte e o que não é, assim como ninguém deveria ter para decidir arbitrariamente se algo é feio ou belo. Desta forma, resta-nos fazer o que nos deixa bem sem se importar com a opinião alheia, simultaneamente jamais permitindo que a discussão a cerca do tópico se extinga.


Revista 3×4 – Fabico/UFRGS (2015)