Contos


Miniconto no Gaúcha Repórter

Estúdio móvel da Rádio Gaúcha na Feira do Livro de Porto Alegre. Reprodução/Jaques Machado

Fui convidada pelo Marcelo Spalding, meu professor de Escrita Criativa na Metamorfose Cursos, para participar do Gaúcha Repórter, um programa da Rádio Gaúcha. Na ocasião, lançaram um desafio: a produção de um miniconto dentro do tema “Família Livro”. Logo abaixo, vocês podem conferir o resultado!

“– Era uma vez um reino comandado por homens maus. Certo dia, os governantes decidiram que apenas pessoas escolhidas poderiam formar famílias. Com isso, muitos órfãos perderam a chance de terem pais. E infelizmente, a história termina assim mesmo, sem final feliz.

– É um livro de terror, mãe?

– Não, minha filha. Livro é o que faltou para estes homens reconhecerem que eram maus.”

Esta edição do Gaúcha Repórter foi realizada ao vivo, direto da Feira do Livro de Porto Alegre, no dia 30 de novembro. Deixo vocês com um breve trecho do programa:


A insignificância dos pacotes 8

Não se pode mudar uma história que estava destinada a acontecer. E naquele dia frio outonal, de 1826, quando eu e meus amigos saíamos de nossas casas confortavelmente aquecidas pelo fogo crepitante de nossas lareiras e caminhávamos rumo a um dos portos ingleses, não fazíamos ideia de que estávamos dando início a algo muito maior que nós mesmos. Aquela tal história – a nossa –, já escrita, começava a ser descoberta agora.

Ao chegar no porto observei que Astrid, o nosso barco, repousava tranquilo no lugar onde o havíamos deixado, como de rotina. Cumprimentei meus companheiros, ao que recebi em retorno apenas alguns grunhidos de insatisfação. Apesar de todos levarem no rosto expressões tão sonolentas quanto a minha, logo tomavam seus postos e preparavam-se ansiosamente para a viagem. Lançamo-nos ao mar, com Astrid enfrentando as turbulentas águas londrinas daquela manhã. Como as pessoas simples que éramos, almejávamos pouco: que a entrega, solicitada no dia anterior, fosse feita dentro do tempo pretendido.

Não era comum aceitarmos propostas que exigiam tanta urgência, mas esta era uma época em que a economia – não a do país, que ia de vento em popa, mas a nossa – andava defasada. Para qualquer segmento em que se decidisse operar na cidade, a mão de obra era muita e variada. As condições de trabalho nas grandes fábricas chegavam a ser ainda piores do que a vida com um grupo grande e sujo de homens ao mar, o que me fez desistir do operariado. Nossa tripulação, em geral, era composta por fugitivos de situações parecidas com esta. Tínhamos consciência de que a ascensão social não nos seria permitida independentemente do setor em que atuássemos. Porém, se era para escolher entre uma vida de miséria na metrópole ou uma igualmente pobre, de aventuras ao mar, com toda a certeza sempre optaríamos pela segunda e seu iminente companheirismo, embriaguez e libertinagem. Não éramos mercenários sem coração; não obstante, também não nos encaixávamos em uma categoria de seres humanos exemplares. Nossos nomes manchados jamais entrariam para a história: apenas aproveitávamos ao máximo as oportunidades a nós concedidas. Ou ao menos era o que pensávamos.

Sephroth, o senhor que requisitou a entrega, era velho demais para aparentar qualquer tipo de sanidade, mas rico o suficiente para não ter esta tal sanidade questionada. Não desistimos do trabalho nem mesmo depois de nosso capitão ter nos contado as exatas palavras de Sephroth ao entregar-lhe o pacote. “Mantenha isso longe da moça”, insistiu. “Haja o que o houver, não permita que ela o toque”.

Sendo assim, eu não poderia encostar no pacote, e muitas brincadeiras seriam feitas no decorrer da viagem em relação a isso. Por várias noites acordei com ele ao meu lado ou fui desafiada a me aproximar deste. Não sou uma pessoa supersticiosa, porém, admito que às vezes coisas estranhas acontecem. Nunca esqueceria da história de uma amiga: ela sonhou que estava sendo esmagada por dinheiro ao entrar em um cofre de banco e acabou morrendo presa nas engrenagens de uma fábrica um dia depois. “Morte por capitalismo”, ria-se meu avô nada sentimental quando contei a história para ele, aos prantos.

Eu não tinha certeza de que algo sobrenatural ocorreria caso eu tocasse o pacote, todavia, parte de mim acreditava nisto. Na verdade, o pedido não era, de todo, incomum, pois ainda naquela época alguns homens julgavam que mulheres a bordo de navios poderiam trazer azar. Já acostumada com o preconceito – mas não conformada – não me importei. Contudo, a estranheza da fala de Sephroth se deu também na próxima informação que veio a proferir. Disse: “Apenas rumem para o sul”. Rumar para o sul? Que tipo de coordenada é essa? E por que exatamente o capitão não havia desistido ao lhe ouvir dizer isso?

“O dinheiro”, alegou. Neste instante, nos explicou de quanto dinheiro estava falando. Ficamos estarrecidos e, subitamente, convencidos. Se a viagem se completasse com sucesso, teríamos fundos o suficiente para adquirirmos um estoque vitalício de rum para cada pessoa da Inglaterra. Agora, lá estávamos nós, indo em direção ao sul. Logo em que passamos a acreditar na impossibilidade de mais ocorrências estranhos tomarem lugar, foi quando elas, de fato, começaram a acontecer.

“Creio que estamos sendo perseguidos, capitão”, alertou, incerto, meu companheiro. “E por um navio pirata”. Notamos o ataque iminente quando os vimos içar sua bandeira – um pano preto com uma caveira branca, idêntico às descrições dos livros da época. Imaginando a Londres antiga, seria comum você, leitor, pensar que existência de piratas e uma perseguição destas eram normais, rotineiras. Mas nós que vivíamos naquela época sabíamos que isso não existia: haviam, sim, os corsários, ladrões esquivos que bombardeavam os navios à noite, roubavam o ouro da cidade e usavam as mulheres.

Nosso navio sempre foi conhecido na região como uma embarcação de entregas simples. Nunca levávamos pacotes de muito valor, seguramente porque nossos empregadores sabiam que a probabilidade de desaparecermos com estes era grande. Não existia um porquê para estarmos sendo atacados. Em adição, piratas caricatos, com pernas de pau, tapa-olhos e papagaios encarapitados em seus ombros não existiam – ao menos não até os enxergarmos armados em nossa frente.

“Entreguem o pacote e nos permitam poupá-los de uma dolorosa e sangrenta batalha”, bradou aquele que descobriríamos, tempos depois, chamar-se Ketty Brövig, “Ou escolham lutar e morrer por algo que vocês não têm ideia do que significa. Na verdade, isto também muito me agrada”. O malfeitor ria-se sozinho e nosso capitão, Almond Marcus, apenas nos encarava, amedrontado e indeciso. Para um suposto líder, Almond não tinha muita iniciativa. Depois de tantos anos trabalhando com ele e estando muito ciente de sua falta de pró-atividade, resolvi eu mesma tomar uma atitude. Gritei: “Se vocês não baixarem os canhões, eu vou tocar no pacote.”

Pelo jeito, Sephroth não era o único misógino. Frente a minha ameaça, o temor dos piratas era evidente. Se uma tempestade não estivesse se formando no céu nublado, acredito que eles teriam recuado, em vez de executarem seu estúpido movimento seguinte. Encetaram a atirar, descontrolados, aproveitando-se de nossa distração com as águas agitadas da chuva. Astrid não dispunha de recursos bélicos ou quaisquer equipamentos emergenciais. Não estávamos, nem de longe, preparados para o caso dele afundar. O céu tornava-se cada vez mais escuro e, o mar, inquieto. Neste contexto, as trovoadas amedrontadoras em nada nos auxiliavam. Desesperada e compreendendo a realidade palpável dos últimos momentos de terror restantes em minha vida, cumpri com a promessa anterior: corri até o pacote, agarrando-o com força.

Acordei em uma praia deserta. As águas límpidas não mostravam sinal dos destroços de nosso pobre Astrid, levando-me à conclusão de que ele afundara. A princípio, não estava ciente de meu recente falecimento. Estranhei a ausência de meus companheiros de viagem e pensei o pior – para eles. Interessante notar o quão fácil é imaginar algo ruim sobre o destino dos outros, mas não supôr que sou eu quem poderia estar com problemas.

Minhas dúvidas viriam a ser esclarecidas instantes depois de alguém aparecer.  “Aproveitando a vista?”, indagou um senhor que não reconheci de imediato. “Quem é você? E como eu teria tempo de parar e observar a vista quando estou perdida em uma ilha deserta? Além disso, tive minha cota suficiente de areias brancas e mar cristalino nessa vida de maruja, muito obrigada”, respondi, irritada com a tranquilidade do homem. “Se me perguntassem, afirmaria que um dos maiores problemas da humanidade é sua falta de interesse em observar a vista”. “Ninguém perguntou. Dispenso seus conselhos sobre o mundo. Diga logo quem raios é você e, se possível, me ajude a sair daqui”. “Meu nome é Sephroth, e eu não me referia à vista da praia, mas sim, a que está sob as nuvens”. “Então isso é sua culpa? Você é o dono do pacote? Se veio cobrar a entrega dele, pode começar a esquecer. E de que nuvens vocês está falando? O céu está plenamente azul!”.

Ele se dirigiu à beira do mar, onde as ondas deveriam tocar seus pés – exceto que não tocavam, porque aquilo não era o mar. Ao seguir Sephroth, me assustei: a ilha, como se flutuasse, estava encoberta de nuvens translúcidas em seu entorno. Através delas eu via carros, fábricas e muita fumaça. Via prédios de concreto que escondiam o sol e árvores escurecidas. Via pessoas com pressa que só passavam umas pelas outras (tal qual passavam pela vida), sem se importar com nada e ninguém ao seu redor. Vi desespero, sofrimento, infelicidade e, mais do que tudo, vi solidão. Ao me compadecer com a situação deplorável do mundo, atingi o ápice de minha humanidade – e não aquela humanidade deturpada que antes eu considerava ser suficiente.

Por fim, dei-me conta que o cenário sobrenatural significava uma coisa: eu estava morta. No entanto, percebia-me mais viva do que qualquer um dos seres do submundo sob meus pés. “Consegue ver quem está no topo daquele prédio?”, Sephroth questionou, apontando para o edifício mais alto. Nele, eu reconheci Almond, meu antigo capitão. Ostentava em seu rosto uma expressão desolada. “Ele está prestes a se juntar a nós. Entre a sua tripulação, foi o único sobrevivente do naufrágio e mergulhou no oceano para tirar o pacote de suas mãos mortas. Se tornou um líder universal e é o homem mais rico dos universos. Não tem mais nada para almejar e perdeu a vontade de viver. Se você olhar mais para baixo, naquele resquício de praça, verá Ketty Brövig – o pirata que afundou seu navio. Após deixar o pacote escapar por muito pouco, enlouqueceu e nunca se perdoou. Passa seus dias na praça, disputando com os pássaros a comida ofertadas por senhoras idosas.”

Um misto de tristeza e decepção me abateu. “Foi o pacote que fez Almond alcançar a sua riqueza?”, perguntei. Sephroth me disse que não; ele não seria capaz disso. “Então… O que é o pacote? E por que eu não podia tocá-lo?”, indaguei, insistente. “Porque você não precisava ser testada – a vida lhe fez mulher, e isto, por si só, já é desafiador o bastante. O pacote é acreditar tanto em alguma coisa a ponto de justificar suas ações com as suas crenças. É desejar uma solução fácil para os problemas do mundo. É contar com a existência de algo além da vida para torná-la especial. O pacote não matou Almond: a confiança cega nas palavras de um desconhecido, sim. O pacote não o torturou: a ganância o fez. O pacote não enlouqueceu Ketty: foi a busca pelo supérfluo que findou sua sanidade. O pacote, na verdade, nunca existiu materialmente. Foi criado em suas mentes segundo determinadas carências. Era um teste. Afinal, todos queremos nosso pacote, mas ninguém realmente depende de um”.