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A rua de cada um 1

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Mario Quintana

– Pega o Serraria ou o Ponta Grossa e pede pro cobrador te avisar quando chegar na padaria Lelé da Cuca. Aí vai descendo umas quadras. É ali pertinho, passando o mercado dos gringo e o bar do Osni.

Eu já sabia como chegar na rua João Palma da Silva, mas quis descobrir quem mais sabia. Para o meu espanto, obtive este trajeto detalhado após pedir direções a uma única pessoa em um terminal de ônibus da Salgado Filho, no centro de Porto Alegre. Na realidade, o homem a quem perguntei não conseguiu responder: antes dele dizer qualquer coisa, foi interrompido pela senhorinha miúda e de ouvidos atentos que há pouco desembarcara de uma das conduções. Com a típica curiosidade de quem conhece todos os vizinhos pelo primeiro nome, ela indagou:

– Quem tu vai ver lá?

– Vou na casa da Dona Leda.

– Ah, então manda um beijo pra ela! E pro Seu Bisico também! – concluiu, agora se afastando.

Surpresa com o fato de uma pessoa aleatória em uma cidade de um milhão e meio de habitantes conhecer meus avós e o caminho exato para a casa deles, subi no ônibus – um Serraria, conforme fora indicado pela senhora. Em aproximados quarenta minutos, estava em casa.

Tenha passado um dia, um mês ou um ano, aquele pequeno pedaço da zona sul permanece sempre igual. Claro, o mercado “dos gringos” mudou várias vezes de nome, o Osni faleceu e as fachadas das residências se renovaram: imutáveis mesmo são os meus sentimentos em relação ao bairro. A João Palma da Silva é a rua da minha infância e, quando a chamo de casa, vale destacar que é em um sentido emocional, não literal. Casas literais eu tive muitas: foram onze, espalhadas por São Gabriel, Gravataí, Bagé, Santo Ângelo, Camaquã, Cachoeira do Sul e Porto Alegre. Ela possui uma qualidade mais interiorana do que qualquer uma das cidades do interior em que eu morei; em meio à agitação da capital gaúcha, é símbolo de resistência. Lá, os vizinhos se dão “bom dia” e os dias são verdadeiramente bons.

A minha primeira memória é desta rua. Eu tinha três anos e estava sentada na calçada quando meus pais voltaram do hospital com o meu irmão mais novo. Menos de uma década depois, foi nesta calçada que, em um caderno barato, rascunhei todo o meu primeiro livro. Ali eu também inventei brincadeiras, corri com os meus oito primos e ralei os joelhos em inúmeras oportunidades. Tive caxumba e catapora, sendo forçada a ficar de cama. Nas ocasiões, fui resgatada pelos primos pela janela do quarto e, consequentemente, acabei por dividir com eles as doenças. Comemorei aniversários, casamentos e formaturas. E chorei sempre que era hora de voltar para “casa”.

Não sou a única que acumula lembranças da João Palma. Ao serem questionadas a respeito dos momentos vividos por lá, pessoas de três gerações da família citaram carinhosamente a pracinha logo na esquina, fonte inesgotável de diversão. Já uma das minhas irmãs (irmã não literal, mas emocional, tal qual a rua) contou que, ao chegar na casa da vó, recorda os finais de semanas esporádicos em que a minha família (não morando mais em Porto Alegre) retornava para visitar. Ela se reunia com as minhas irmãs mais velhas no carro do meu pai e as três matavam a saudade ouvindo CDs. Um destas irmãs mais velhas falou das tardes de falta de luz; nestas, todos sentavam em frente a casa para conversar. Algumas tias lembraram que um namoro da família Silva só é oficial após os pretendentes visitarem a rua da vó Leda e do vô Bisico. E chances não faltam: aos sábados, comer bolo na casa deles é atividade obrigatória.

Em um dia assustadoramente próximo, os paralelepípedos serão substituídos por cimento e as árvores cederão espaço a grandes prédios luxuosos. Ainda assim, histórias continuarão a serem escritas, porque esta é a magia das ruas: elas se adaptam e sobrevivem por tanto tempo quanto durar a memória daqueles que as cruzaram. A minha João Palma da Silva – das brincadeiras infantis, das tardes de férias e dos bolos aos sábados – deixará de existir junto comigo. Em seu lugar, surgirão milhares de novas ruas pertencentes a outras crianças, outros adultos e outros avós. Da minha, ficará apenas esta crônica, contando um pouquinho sobre o local singular que um dia eu chamei de casa.


Crônica produzida para disciplina de Jornalismo Cultural, no semestre de 2016/1. Se você já leu “O Velho Mundo”: os membros da família Silva são os Cantrell da vida real (:


Primeira resenha de “O Velho Mundo”

Saiu a primeira resenha do meu livro, “O Velho Mundo – Abrem-se os portões de Erebo”, e é um amorzinho! Foi feita pela Shirlaine Santana, do blog Falando diferente sobre livros. Obrigada pela resenha, guria! Fico feliz de ter agradado (e espero que os demais leitores concordem contigo hahaha).

“O Velho Mundo” já está à venda e pode ser adquirido diretamente comigo aqui pelo site. É só clicar em “Comprar” e escolher o melhor método de pagamento para você. O livro vai autografado e com um marcador de página <3 E, se você também tem um blog e quer fazer uma parceria, fale comigo pelo e-mail contato@katiareginasouza.com.


Lista de livros nacionais de fantasia no Goodreads

De vez em quando o pessoal vem me pedir indicações de bons livros nacionais, então passei aqui rapidinho pra deixar esta lista do Goodreads pra vocês. São vários livros de fantasia escritos por autores brasileiros! Tem o meu e muitas publicações de colegas escritores que já foram resenhadas neste site. Então, se estão procurando incrementar suas listas de leitura, divirtam-se! E se o seu livro nacional preferido ainda não está lá, já aproveite para acrescentá-lo na lista também (qualquer um pode adicionar uma obra e votar nas suas favoritas).