Tatuagem por quê? 5


Todo corpo é um produtor de signos. Qualquer modificação que fazemos nele, por mais trivial, sempre dirá algo a nosso respeito. Quando nos tatuamos não é diferente. Logo, não existe um fator padrão que motiva as pessoas a adotarem este procedimento, mas sempre haverá um porquê.

 

As tatuagens e modificações corporais têm se tornado um assunto cada vez menos polêmico. Hoje, elas aparecem de diferentes formas em nosso cotidiano e são requisitadas por um grande público, seja como recurso na construção de uma identidade, meio de expressão artística ou meramente por questões estéticas. É um hábito antigo – ninguém consegue precisar exatamente sua data de origem – que foi incorporado por muitas sociedades ao longo dos tempos. “Esta prática se relaciona com a experiência existencial e remete aos rituais das ditas sociedades não letradas. Cada tatuagem é como se fosse uma escrita; através dela eu sei com quem estou falando. Por este motivo, ela acaba adquirindo múltiplos papéis: identificação, demonstração de laços, pertencimento e exteriorização de fatores que habitam nosso eu”, afirma o fotógrafo Alexandre Medeiros, que vê o tema como um subaspecto dentro da problemática do corpo, a qual tenta pleitear em seus trabalhos ao retratar situações marginais e limítrofes.

A procura por estúdios de tatuagem e body piercing cresceu muito em comparação ao cenário de 10 anos atrás. “A tatuagem ganhou uma nova proporção. Antes, o jovem começava fazendo algo pequeno, primeiro para entender a dor e saber se ia gostar. Agora não. Eles chegam aqui querendo fechar uma perna, um braço. A demanda entre adultos também cresceu. Aliás, são os mais velhos que compõem a maior parte de nossa base de clientes”, conta Ibrahim Barboza, tatuador e dono de um estúdio na zona sul de Porto Alegre.

Cris e Victor Peralta. Divulgação/Maiury Winckiewicz

Para várias pessoas, a tatuagem vai deixando aos poucos de ser um passatempo e se transforma em suas vidas. Cris e Victor Peralta, por exemplo, entraram no Guinness Book (Livro dos Recordes) como o casal mais modificado do mundo. Ela, que trabalha com body piercing, tem quase 55% do corpo tatuado; ele, também um tatuador, já passa dos 95%. “A gente come, respira e vive tatuagem. É algo presente em boa parte do nosso dia. Temos dois estúdios, ambos em Buenos Aires, na Argentina. Passamos mais tempo neles desenvolvendo os trabalhos dos clientes do que em casa. Para mim, a pele é uma página em branco. Assim como tem gente que pinta quadros, nós pintamos ela”, afirma Victor. Os benefícios de atuar nesta área são diversos, conforme Cris destaca. “Estamos inseridos dentro de uma comunidade. Tanto pelo fato de sermos modificados quanto por nossa carreira envolver isto, temos chances excelentes de viajar, participar de convenções do mundo todo, conhecer novas culturas, novas pessoas… Trabalhamos brincando”.

Casal entrou para o Guinness Book como o mais modificado do mundo. Divulgação/Kátia Regina Souza

Mas mesmo os mais aficionados no assunto não se resumem somente a isto. Em relação às modificações suas e da esposa, Victor ressalta que os dois não possuem sempre o seu próximo projeto em mente. “Ao contrário do que alguns possam imaginar, não pensamos o tempo inteiro no que vamos fazer depois. Quando surge uma ideia legal e queremos colocar em prática, a gente põe, simples. Não somos alienados. Ocupamos nossa cabeça com outras coisas”.

 

Manifestação marginal ou arte?

Embora o preconceito contra tatuados tenha diminuído, ele está longe de ser abolido por completo. Segundo a tatuadora e body piercer Ana Drechsler, há quem vá dentro dos estúdios para questionar sua soberania sobre o próprio corpo. “Escutamos frases absurdas seguidamente. Tivemos muitos casos de pais que acompanharam os filhos até aqui, enxergaram a quantidade de tatuagens que tenho e disseram ‘Olha pra ela, eu não quero que tu fique assim. Por que alguém faria isso?’”.

Ibrahim Barboza trabalha no próximo projeto. Divulgação/Kátia Regina Souza

A intolerância ao redor do tópico tornou-se tão comum para Victor Peralta que já não o perturba. “Em todos os lugares que você for, sempre vai ter um babaca. Ao lado do meu estúdio existe uma Igreja Universal. O pastor costuma falar que eu sou o diabo, manda embora meus clientes, berra no meio da rua e diz um monte de absurdos. Sinceramente, não me incomodo. Ou ele não está bem da cabeça, ou é mais diabo que eu”. Na visão de Ibrahim, tatuar é uma arte como as demais. “No momento, estou focado no pontilhismo. Criar um desenho bom neste estilo exige um estudo aprofundado, conhecimento de geometria e todo um cálculo por trás. É um trabalho intenso e demanda comprometimento meu e do cliente, uma vez que pode ser muito demorado”.

É complicado destruir um preconceito quando mesmo o campo da tatuagem não está livre dele. Não existem dados oficiais em se tratando deste assunto, mas por meio de conversas com profissionais e visitas a estúdios é possível reparar que o número de mulheres tatuadoras ainda é ínfimo se comparado ao de homens. “Trabalho com o piercing há mais de 12 anos e tatuo há aproximadamente três. Muitos clientes e outros tatuadores costumam pensar que, por eu ser mulher, a arte não será tão bem feita. Isso nos prejudica bastante porque precisamos de oportunidades para montar um bom portfólio e acabamos tendo menos que os homens”, revela Drechsler.

Tatuadora e body piercer Ana Drechsler. Divulgação/Kátia Regina Souza

Quem hostiliza pessoas tatuadas costuma se importar não com o teor do desenho em si, mas com o simples fato dele existir. Afinal, a partir do momento que somos modificados, passamos a integrar um grupo diferenciado. Ou seja, o debate levantado pela tatuagem se distancia do que diz respeito à beleza por consistir em algo mais profundo. “Não é a estética pela estética. Claro que você vai querer ter um trabalho bonito, mas vai além disso. Quando eu me tatuo, estou escrevendo a minha lei na minha pele: desejos, crenças, temores, fragmentos de ideias que moldam uma personalidade. Como fotógrafo, estou pouco me lixando para se meu trabalho vai ser considerado arte ou não, e acho que tatuadores também estão. Hoje em dia existe uma grande poluição de imagens belas, de qualidade aceitável, mas que pecam por não dizerem nada. É uma espécie de parnasianismo visual”, acredita Medeiros. Ninguém tem propriedade para ditar o que é arte e o que não é, assim como ninguém deveria ter para decidir arbitrariamente se algo é feio ou belo. Desta forma, resta-nos fazer o que nos deixa bem sem se importar com a opinião alheia, simultaneamente jamais permitindo que a discussão a cerca do tópico se extinga.


Revista 3×4 – Fabico/UFRGS (2015)


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

5 pensamentos em “Tatuagem por quê?

  • Tiago Lopes

    Como tem geste bosta nesse mundo ainda, nossa. Quanto pensamento atrasado. Excelente matéria! Tatuagem vai além de beleza, é bacana mostrar isso.

  • Hilda

    Apesar de eu não gostar da idéia de tatuar meu corpo o texto está muito bem escrito e nos passa uma visão interessante e difere sobre tatuagens.

  • Ricardo Oliveira

    Excelente texto! Adorei essa visão da tatuagem como forma de arte e, principalmente, a exposição das ideias e experiências dessas pessoas que tu entrevistou.
    Além disso, acho importante divulgar a voz desse mundo que enfrenta tanto preconceito ainda hoje, mesmo com o número de tatuados crescendo cada vez de maneira mais acentuada. Com tanta gente fazendo tattoo, não entendo como ainda possa existir essa reação negativa ao assunto. Triste termos que tratar disso ainda em 2015.
    De qualquer forma, realmente muito interessante a leitura. Parabéns!

  • Patricia Martins

    Se tatuar é uma opção pessoal, assim como a escolha de uma roupa, de uma maquiagem, de uma crença, do seu time de coração! E assim como qualquer escolha pessoal deve ser respeitada! Aqueles que criticam os tatuados deveriam rever suas próprias escolhas e aprender a viver com a diversidade!